Sobre porões e Ciclopes Sicilianos*

Acredito que nada coloque mais medo no ser humano do que olhar para si mesmo – aquele terror de ver um monstro atrás da porta, embaixo da cama, em lugares escuros, escondidos, cheios de teias de aranha empoeiradas, ou sob lençóis brancos jogados sobre a mobília encardida e abandonada.
Muitos preferem recuar, afastar-se desse quarto obscuro, antes mesmo de abrir a porta. Alguns se enclausuram dentro de celas de telas luminosas, que ofuscam a humanidade nelas escondida.
Outros trancam seus porões e entregam a chave, e o juízo, a seres superiores, os mais diversos, a depender de cada credo, fazendo deles faxineiros espirituais, responsáveis únicos pela sua limpeza e conservação.
E há os que saem de casa, à caça de vizinhos, para, de fora, olhar e analisar a intimidade de seus lares, esquadrinhando mentalmente cômodos nunca visitados, não percebendo que, de fato, o que seus olhos míopes enxergam são espelhos.
Ora, claro! De onde mais sairiam os parâmetros para avaliar-se o que nunca se viu?
No momento em que se julga aquilo que foi moldado e habita entre paredes alheias, utiliza-se como referência a própria arquitetura.
Então me diga, são aposentos sórdidos e sombrios ou asseados e límpidos os que você vê, lá fora de você?
A resposta é “nenhuma das anteriores”.
Entenda, meu caro, nada é puro e, mais, entenda também que porões alheios não precisam ser julgados pelo seu olho caolho, especialmente, se você desconhece seus próprios cantos sombrios.
Apenas dê meia volta e retorne para dentro de você e limpe, limpe, limpe muito seu próprio porão. Retire os lençóis, as teias de aranha, abra as janelas e permita que o ar novo entre. Aproveite a luz que lhe invade e cace seus monstros, sejam eles Mogwais pentelhos ou mesmo uma Hidra de Lerna.
Essa odisseia é sua. Manter seus aposentos limpos e derrotar seus monstros, ou, pelo menos, colocá-los sob controle, é tarefa árdua, contínua e sua. E enquanto houver casa, haverá pó para espanar e monstros para enfrentar.
O inadmissível é a resignada ignorância de si mesmo. Isso é algo nefasto, pois inibe a evolução espiritual, mantém a alma engatinhando e acreditando, como um bebê, que apenas o que sê vê é o que existe.
Se eu não vejo meu monstro, ele não existe. E vou além. Para que ele não apareça, inventarei e me ocuparei de monstros-amigos imaginários, que vivem em casas alheias e me mantém, covardemente, distante dos meus próprios demônios.
Assim, meu Ciclope Siciliano cresce, toma conta do porão que nunca vejo, alimenta-se da sua invisibilidade e multiplica-se. E o quarto esquecido não é mais suficiente para abrigar a família de monstros que, então, começa a invadir os corredores e, aos poucos, o resto da casa, até sair pelo mundo e devorá-lo.

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*Os Ciclopes Sicilianos são a raça de ciclopes retratados, na Odisseia de Homero, como criminosos gigantes e arrogantes, que habitavam uma região ao sudoeste da Sicília. Costumavam provocar o terror nos agricultores, quando invadiam as plantações em busca de comida, como frutas, ou até mesmo carne humana. Esses ciclopes eram considerados selvagens e moravam em cavernas com suas famílias.

Fonte: https://www.infoescola.com/mitologia-grega/ciclopes/

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