Mancha Surrealista


Existem várias “big pictures” existenciais – espiritual, política, social, cultural, entre outras. A certa altura da vida, ciente disso ou não, um ser racional, para ser reconhecido pelos pares como tal, precisa escolher um determinado ponto em cada quadro existencial para ali se alojar, tornando-se, muitas vezes, um elemento fixo da imagem.
Desse ponto que lhe oferece uma cômoda e paralisada segurança, avista apenas o que os olhos alcançam e, sem experimentar o pixel alheio, sobre ele adota conclusões. Forma convicções a partir de uma imagem em baixa resolução, sem qualquer esforço num sentido HD – talvez por medo da alta e, por vezes, dolorosa definição. Há uma fé inabalável no ponto de vista adotado, em muitos aspectos, contado por um “telefone sem fio” presente na História.
Por que estou dizendo isso? Porque quando caio em determinados pixels, depois de me debater dentro deles, tento escapar e me torno uma espécie de andarilha sobre tinta fresca. Não consigo estacionar, achar vaga num exato lugar, onde caiba o tamanho da confusão que é a minha certeza, e onde se encaixe a incerteza que é a minha verdade.
Admiro a satisfação e a tranquilidade que vejo no fundo do olhar dos que acreditam – não, não faltou o objeto indireto – é que esse “acreditar” é um tanto intransitivo, devido aos incontáveis e robustos complementos confusos, que não conseguem transitar pelo túnel estreito da minha mente descrente.
Não sei tirar uma conclusão absoluta sobre algo que observo à distância, por meio dos meus parcos sentidos humanos, ou porque me disseram ou, ainda, para me sentir segura e apoiada pelos habitantes de um único e apertado pixel. Evito propalar qualquer ponto de vista não experimentado, por pura consciência da minha ignorância sobre o grande quadro. Minha humanidade simplesmente não me deixa alcançar a altura necessária sobre a tela, para enxergá-la por inteiro e em alta definição.
Fragmentos de realidades me inquietam.
Troca de adjetivos nos debates entre habitantes de diferentes pixels me irritam.
Em discussões, as efusivas manifestações de apreço ou desapreço, em regra, denotam uma incapacidade de argumentação na defesa inócua de um único ponto de vista. Mas há quem entenda que a não adoção incondicional de um pixel, um grupo, um time, um clube, um partido, uma religião, uma verdade absoluta é atitude de pessoas alienadas, sem senso crítico ou opinião... e lá vem um arsenal de pedras lançadas de todos os lados, por egos inflados e sem imaginação.
Há um fenômeno um tanto interessante, para não dizer angustiante, sobre isso. No que diz respeito especialmente à política, observa-se uma típica anexação entre habitantes de pixels distintos, provenientes de outros quadros existenciais, que se reorganizam em apenas dois blocos, ou lados, pintando uma tela um tanto monótona e, por vezes, tosca. Para muitos, o lado escolhido deve ser vitalício, e qualquer membro do bloco “oposto” deve ser considerado seu arqui-inimigo. Esses seres maniqueístas, autoclassificados como racionais e conscientes, desconsideram que ambos os lados são preenchidos por seres humanos individualmente bons e maus, ignorantes e sabedores, cheios de dualidades, mutáveis e perecíveis.
Definir-se a si mesmo como um pixel, ou um lado, pode provocar um defeito no pensamento racional, que acaba descontextualizando fatos e ideias, colocando-os nesse ou naquele polo, estancados da sua realidade complexa e integral. Pensamentos e fatos passam a ser resultados da visão viciada: "O que vem do meu lado está certo e o que vem do seu lado está errado. Ponto final" – uma simplicidade cômoda e conveniente ao ego.
Vemos e vivemos, diariamente, as consequências de escolherem-se pixels como verdades absolutas, ou como se fossem a paisagem inteira. Adotar ferrenhamente um ponto de vista, sem o conhecimento ou a simples aceitação de outros pontos de vista, suscita opiniões, conclusões e decisões tendenciosas, passionais e até mesmo extremistas, gerando consequências desastrosas na evolução de uma sociedade.
Tentar dialogar com “mentes pixels” é um dispêndio de energia estéril e entediante e, às vezes, até deprimente. Não há debates produtivos e evolutivos, mas comportamentos infantis, irracionais e beligerantes. Basta observar grande parte das discussões em redes sociais, onde se nota que as partes em conflito abrem o filtro afetivo apenas para fatos e opiniões que sedimentam a própria convicção, e anestesiam os neurônios frente àqueles que a contrariam.
Isso acontece por vários motivos, entre eles: preguiça de escalar muros, aqueles mais altos, normalmente censurados, que separam pixels e blocos e possibilitam uma observação mais ampla de uma perspectiva menos egoica; preguiça de ir à caça de informações objetivas e contextualizadas de fontes imparciais, com o fim de construir uma opinião própria; insegurança e medo de ser banido ou criticado pelos habitantes do pixel escolhido, perdendo sua proteção; necessidade de ser aceito, acompanhado e aplaudido pelo grupo; medo de desabar, ao ter que se desfazer de algum fundamento ou valor de vida, sobre o qual uma estrutura pessoal foi construída.
Obviamente, o presente texto pode ser, ele mesmo, mais um ponto de vista, ou até mesmo uma mancha surrealista, resultado de vários pixels embaralhados. O fato é que essa “mancha” me traduz e não me deixa habitar, impassível, categorias e grupos, ou pontos, sejam pontos de vista radicais ou pontos finais assertivos demais. Recuso grupos dogmáticos, que impõem crenças ou pregam o desrespeito ou a absoluta ausência delas, sem margem a questionamentos, destruindo a capacidade dos seus integrantes de desenvolverem, mudarem, aperfeiçoarem ou mesmo abandonarem ideias preconcebidas. Esquivo-me o quanto posso, mas sei que é impossível não pertencer a nenhum grupo e, ao mesmo tempo, viver em sociedade. Ainda assim, procuro manter a consciência de que grupos, classes e categorias não me definem, para oferecer a mim mesma outras perspectivas.
Por tudo isso, ao interagir com o outro, tenho o hábito temerário de não observar se ele está inserido em algum grupo ou qual grupo é esse. Sei que essa atitude pode trazer consequências embaraçosas, porém, a mancha surrealista me faz ver os outros assim: puramente, indivíduos além de mim.
Somos todos seres humanos singulares unidos pela vida, agrupados aqui e ali, devido à interdependência inata à nossa espécie – pois, entre outros fatores, grupos organizados e conscientes são mais produtivos, prósperos e felizes do que indivíduos isolados. Mas não podemos perder de vista o respeito à individualidade e ao fato de que todos dividimos um único e colossal ponto de vista em comum – a belíssima tela-esfera azul – esse, sim, um indeclinável e valoroso ponto, ainda íntegro, girando no espaço.
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O texto acima não tem a pretensão de sugerir qualquer conhecimento científico ou acadêmico específico. Trata-se apenas de um conjunto de reflexões e divagações da autora.

Sobre porões e Ciclopes Sicilianos*

Acredito que nada coloque mais medo no ser humano do que olhar para si mesmo – aquele terror de ver um monstro atrás da porta, embaixo da cama, em lugares escuros, escondidos, cheios de teias de aranha empoeiradas, ou sob lençóis brancos jogados sobre a mobília encardida e abandonada.
Muitos preferem recuar, afastar-se desse quarto obscuro, antes mesmo de abrir a porta. Alguns se enclausuram dentro de celas de telas luminosas, que ofuscam a humanidade nelas escondida.
Outros trancam seus porões e entregam a chave, e o juízo, a seres superiores, os mais diversos, a depender de cada credo, fazendo deles faxineiros espirituais, responsáveis únicos pela sua limpeza e conservação.
E há os que saem de casa, à caça de vizinhos, para, de fora, olhar e analisar a intimidade de seus lares, esquadrinhando mentalmente cômodos nunca visitados, não percebendo que, de fato, o que seus olhos míopes enxergam são espelhos.
Ora, claro! De onde mais sairiam os parâmetros para avaliar-se o que nunca se viu?
No momento em que se julga aquilo que foi moldado e habita entre paredes alheias, utiliza-se como referência a própria arquitetura.
Então me diga, são aposentos sórdidos e sombrios ou asseados e límpidos os que você vê, lá fora de você?
A resposta é “nenhuma das anteriores”.
Entenda, meu caro, nada é puro e, mais, entenda também que porões alheios não precisam ser julgados pelo seu olho caolho, especialmente, se você desconhece seus próprios cantos sombrios.
Apenas dê meia volta e retorne para dentro de você e limpe, limpe, limpe muito seu próprio porão. Retire os lençóis, as teias de aranha, abra as janelas e permita que o ar novo entre. Aproveite a luz que lhe invade e cace seus monstros, sejam eles Mogwais pentelhos ou mesmo uma Hidra de Lerna.
Essa odisseia é sua. Manter seus aposentos limpos e derrotar seus monstros, ou, pelo menos, colocá-los sob controle, é tarefa árdua, contínua e sua. E enquanto houver casa, haverá pó para espanar e monstros para enfrentar.
O inadmissível é a resignada ignorância de si mesmo. Isso é algo nefasto, pois inibe a evolução espiritual, mantém a alma engatinhando e acreditando, como um bebê, que apenas o que sê vê é o que existe.
Se eu não vejo meu monstro, ele não existe. E vou além. Para que ele não apareça, inventarei e me ocuparei de monstros-amigos imaginários, que vivem em casas alheias e me mantém, covardemente, distante dos meus próprios demônios.
Assim, meu Ciclope Siciliano cresce, toma conta do porão que nunca vejo, alimenta-se da sua invisibilidade e multiplica-se. E o quarto esquecido não é mais suficiente para abrigar a família de monstros que, então, começa a invadir os corredores e, aos poucos, o resto da casa, até sair pelo mundo e devorá-lo.

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*Os Ciclopes Sicilianos são a raça de ciclopes retratados, na Odisseia de Homero, como criminosos gigantes e arrogantes, que habitavam uma região ao sudoeste da Sicília. Costumavam provocar o terror nos agricultores, quando invadiam as plantações em busca de comida, como frutas, ou até mesmo carne humana. Esses ciclopes eram considerados selvagens e moravam em cavernas com suas famílias.

Fonte: https://www.infoescola.com/mitologia-grega/ciclopes/