Com jugo

com o tempo não me meto
ele é que se enfia por todos os vãos
e espalha ramas pelo chão

Eu?
ah, eu reclamo em vão

tempo é verbo inflexível
incondicional
imperativo
nada indica que faça sentido
por todos os modos
termino subjuntivo
que venha, então
quando vier, estarei presente…
ou serei passado?
se eu pudesse, renasceria infinitiva
e o futuro seria um tempo mais que perfeito


Soujeito

neste mundo transitivo
opto por objetos diretos
evito os indiretos
pois não há tempo a perder
mas espíritos intransitivos
me levam a estados inativos
então procuro complementos certos
e verbos abertos
para ter uma ligação

sempre que eu ficar sem ação


A sorte que você vê é força de vontade, sabia? E dá um trabalho que você nem imagina!

Engasgada


vou me lamber
que nem meu gato
catando respostas na pele
engole pelo
vomita a bola
e a vida segue
com seu porquê assimilado


mas aqui não há pelos
só apelos
do que engulo nem bola formo
não vomito
nem me conformo


A história de um escritor que não foi

No início, eram dezenas de romances colados nas minhas retinas. Entediados, eles se desprenderam e partiram-se em centenas de contos, que se abisonharam aqui mesmo, por dentro, em cantos sem ritmos e recantos sem ângulos.
Ao longo do tempo, brotaram milhares de poemas espremidos em capilares inexpressivos. Já cansados de remar sem rumo, perderam-se em aldravias de meia vida, em vias tão agitadas quanto desertas.
A morte era certa.
Microcontadas por dentritos e axônios tímidos, que não se apalpavam diante das sinapses mais atraentes, as palavras desistiram.
Ao final, sem Kire e sem Kigo, haicaíram das dezessete janelas de todas as minhas estações perdidas.
Assim, fez-se morta minha letra.
Fim.


Somos todos crianças...


...que foram abduzidas de algum planeta que faz sentido para, depois, sermos lançadas aqui, nesse parque de diversões, diversidade e adversidades de um mundo insensato, sem qualquer adulto responsável no pedaço.
Brincamos de faz de conta, gangorra, elevador, bate-bate, trem-fantasma, em montanhas-russas com loopings, naqueles brinquedos de girar até ficarmos tontos e enjoar. Mas há, também, os que só brincam de amarelinha, carrinho e casinha, em que tudo faz sentido no diminutivo.
Amamos ou odiamos os parceiros de brincadeiras, conforme eles nos satisfazem ou nos contrariam, afinal, crianças que somos, queremos somente satisfação, diversão e mimos.
A diversidade de brinquedos e de brincadores do parque é aceita apenas quando e enquanto se encaixa nos nossos gostos e vontades.
As adversidades e contrariedades nunca são bem-vindas e provocam birras, teimosia e guerrinhas pueris e egocêntricas.
Cansei!
Não quero ser criança de mentira...
Quero viver entre adultos – aqueles seres abstratos, mágicos, fantásticos, supostamente responsáveis por esse grande orfanato. Da criança de verdade, quero só a alegria e a fantasia de que basta dormir para ver um novo dia.

Taça vazia


enquanto a taça se despe
a vida se despede
enquanto de doses de vida me dispo
por dentro eu me visto
e diviso
o vermelho das paixões não vividas
vejo desejos em gotas de sangue
suadas
choradas
em química seca mitigadas
é acre
salgado
amargo
mas nunca doce
desejo de vinho não é doce
vida doce não põe vontade no vinho
não a vontade de fogo
rubra
monocromática
imersa
até a última gota

...

o que de tudo sobrou
estava na taça
e quando a taça se despe
algo da mente amortece
esvazia


a taça ficou vazia
quando tive o que eu queria
do que antes não me foi dado
ao beber do prazer de ter
verteu-se o prazer

do que viria


a cor
o sabor

o aroma que acende o desejo
secaram
quando a taça ficou vazia


Cansaço Pessoal


esse meu cansaço não é meu
é de ninguém
e mesclou-se à vontade
que não é minha também
nem cansaço deve ser
talvez uma vasta acepção

de todas as decepções
“que se me entranha”...

acho que Pessoa acertou no Álvaro

Selo ou "não sê-lo"

velhos discos de vinil...
não! infelizmente não os tenho
são lembranças

de vontades mil
e desejos ainda ferrenhos


não se engane
deles cheguei antes

mas

quando pude tê-los
eram artigos de colecionador
e ainda não posso sê-lo
selo também é coisa de colecionador
assim como dinheiro

mas

ainda não posso tê-los
então
invisto nos cabelos
grisalhos é que não posso vê-los


Verdades íntimas

toda resposta é certa e errada
nunca uma coisa só
pois a verdade é isto mesmo: quimera
pantera
fera
véspera do escarro
jamais companheira inseparável

verdade é qualquer coisa

menos a realidade
é equação algébrica bizarra

frágil:
X – REALIDADE = VERDADE
se a realidade for maior que qualquer coisa
a verdade terá um formidável enterro


Cansaço supermassivo

uso autorizado da imagem - crédito@RobertCorneliusPhotography

o cansaço
tem o aço que eu não tenho
ora se descarrega sobre mim
com o peso de todos os versos presos
ora é buraco negro

supermassivo
que me suga feito espaguete vivo
entre os lábios do avesso


sobrevivo além do horizonte de eventos
mas no silêncio
na ausência de toda luz
eu me fragmento
em elementos

da saída de tudo o que se sabe

No fogão


por que uns nascem assim
outros assados?
e por que alguns ficam fritos
torrados
e até passados?
por que muitos são assim tão crus?


já outros gostam de ser cozidos
mas fogem da pressão...
e há os que, por qualquer razão

ficam derretidos
por quê?


eu mesma entro em ebulição
depois quero evaporar
ou sublimar
difícil ser sólida
num mundo que me escorre pelos dedos



Não abra a caixa




Onde está a realidade?
não, ela não está aqui
lacrada nesta caixa


sou o tal gato vivo-morto
superposição quântica
velada
indefinida
estou morta
estou viva
ao observador sou tudo
e nada

não abra a caixa!

o tempo?
ora, o tempo…
não o tenho aqui
agora
também não está lá fora
não o entendo!
ele fixa
mas não é fixo
contínuo, é peremptório
muda e registra
faz muda e mata
é branco e marca
mancha e limpa
sua marcha é limpa
ainda assim, a nódoa fica

não, não abra a caixa!

cicatrizes
invencíveis
as piores se mostram
e revelam
o que só a morte cessa
depois dele
do tempo
depois de muito dele
vejo que não é o tempo
mas os vermes
que apagam as cicatrizes
iguarias
que o tempo serve aos vermes
elas vivem além de você
eles não sobrevivem ao tempo
sim, os vermes
o tempo os devora
com seus estigmas corroídos

não abra a caixa!

engane-se…
por um tempo
não faz mal
ao tempo mal nenhum se faz



Resistência

vazada em versos enviesados
vago
avessa a vias vesgas e vazias


Lacre mal


nos olhos brotam letras
líquidas e criptografadas
choro um alfabeto sumeriano
se eu fosse suméria
ele seria sânscrito


Carmim

chego na porta
forço a saída
quero escapar
ruir até fluir

o corpo cresce

e a mente arrefece
sou prosa obesa
enroscada no vão

do verso vesgo

me espremo
me exprimo em vão
empurro pensamentos de volta
e me volto à mesma porta

errada

é a porta que não me cabe
sou avalanche

quero liberdade

busco outro caminho

me apinho no vinho
que me invade
liberta
e me arrima
numa débil rima

carmim

Caminho literário

Desde criança, desenvolvi um sentimento de encanto por poetas, contistas, romancistas e também filósofos, ao deparar-me com a habilidade que tinham para expressar o que, muitas vezes, eu mesma sentia ou pensava, além de uma habilidade fantástica de criar filmes na minha mente. 

A leitura de um livro é uma ação causa e efeito da leitura e capacidade de compreensão e interpretação da vida, das pessoas, da natureza, do cosmos e de tudo o que nos entra pelos sentidos, de um modo muito peculiar, íntimo e constante.

Cem caracteres exatos

Nesta página, registro uma coleção de microprosas e micropoesias de minha autoria. São textos com o total de 100 caracteres exatos, incluídos espaços e pontuação. Resultaram de um trabalho realizado no início de 2016, proposto como um desafio entre escritores no Facebook. A ideia do desafio inspirou-se, à época, na obra "Cem Toques Cravados", do escritor e editor Edson Rossatto.


Cebolinha e Mônica cresceram. Juntaram seus quadrados. Ela trocou Sansão por um bebê. Ele falou "r".


Renato queria, ao menos uma vez, explicar o que ninguém conseguia entender. Eu entendi o seu desejo!


- Lobisomens! A lua está cheia!
Gritou desesperado o pobre menino. Um deles quase alcançou Cebolinha.


Disse à esposa que ela era uma droga na vida dele, e ele já não aguentava o tormento da abstinência.


Pela manhã, era Lisa. À tarde, Luísa. À noite, perdia-se entre vidas desconhecidas por Lisa e Luísa.


Ele era um ambulante incompreensivelmente metamórfico. Desdizia o que havia dito antes. Nada vendeu.


Pegou carona na cauda do cometa e viu a via láctea. Contudo, foi incinerado ao adentrar a atmosfera.


Gentilmente, estendeu-lhe a mão! Mas o zumbi estava enjoado de dedos e queria novidade. Pediu couve.


O escritor maldito bem disse a maldita realidade. Rechaçaram-no. Mais fácil que afastar a realidade.


Girava dentro de uma bolha, assim como alguns outros. Dona Razão usou o alfinete e ele caiu na real.


Afastava-se. Eu corria atrás. Clima frio entre nós. Quebrei o gelo e caí nas águas frígidas do lago.


Flor e vaso fizeram-se inseparáveis. Resignado, ele a amparava, quando embriagada Flor se entregava.


O paraquedas não abria. Desistiu. Nada de flashback. Contemplou a beleza ao redor. Aprendeu a viver.


A cabeça, enfim, encontra o travesseiro. Caso de amor antigo ameaçado pela insônia, aquela meretriz!


À beira do penhasco, hesitava. Sentia-se impelido a saltar. O jovem pássaro, então, lançou-se ao ar.


O ponto explodiu. Expandiu. Estrelas foram protagonistas. Chocaram-se! Sua poeira dotou-se de almas.


Folgato desfila altivo. Salta com lógica. Lambe-se com critério. Alonga-se. Adormece. Simples assim!


Distraído na trilha. Irrompem atiradores. Medo. Agitação. Sangue. Manchas azuis? Caramba! Paintball?


Amadeu amou como disseram que deveria.
Errou.
Adaptou-se.
Hoje, ama do seu jeito certo a pessoa errada.

Falta que sobra


em mim não habita um sonho
mas um sono desses de não dormir
uma falta que sobra
uma sombra que arrasto
canso, paro e largo
esse saco de sobras
onde habita o que me resta



Se não há ouvidos de escutar,
por que falar?



Tudo é igual lá na frente,
mesmo se o passado foi diferente.



concordar não é entender
entender não é aceitar
aceitar não é concordar



E se a única coisa no lugar forem os cabelos, mas eles estiverem caindo?


Certeza – etiMINHAlogia: ser tesa – ser parada, inerte, rígida
Dúvida – etiMINHAlogia: dou vida – dar origem, ânimo, impulso


Será que a dança foi inventada?
Ou alguns primatas começaram a se sacudir por aí
e a dança evoluiu?



Espero a hora de escrever como uma adolescente espera o primeiro beijo: cheia de desejo e sem saber se usará a língua direito.


Se o calor humano está ausente,
abra uma ducha bem quente.
Depois crie coragem e feche.
O planeta agradece.



Paciência é uma coisa linda!
Por isso, as pessoas testam você, sabia?
Para que o mundo fique mais belo.



Experiências de vida atestam que alta concentração de presunção em O2 provoca saturação de contradição em CO2.


O “conceito” dentro do preconceito não é conceito, é peça de museu antropológico sociocultural, sujeito a observação e estudo, e não a uso.


Mesmo dirigindo, quando aparecem cobradores, viro passageira.


Ser livre é ser livre de ser
seja lá o que for.