Cativa


O desafio não é escrever isso ou aquilo
o desafio é viver o que se escreve
ou aquilo que quer ser escrito


há um desejo que pede
anseia
esperneia
exigindo registro

é desafio da vida
que busca a luz

a fenda
a réstia
a brecha de mim escondida

o braço se estica

mas não alcança a chave
que está lá


bem lá
presa no cinto do carcereiro

e a cada noite

o dia vira morte não escrita
aí fora

aqui dentro
no cativeiro da espera


Meu endereço

moro lá
do outro lado da parede surrealista
pintada de desejos
o acesso?
ah! Use a porta camuflada das minhas experiências


EM BUSCA DA MÉDIA ARITMÉTICA

Uma boa amizade pode ser o melhor ponto de partida para um relacionamento verdadeiro. Uma estranha atitude pode gerar efeitos esperados num futuro inesperado. Nessa história não há princesa e não há príncipe O melhor conto não é o de fadas, é o que você vive.

Leia no Wattpad: Em Busca da Média Aritmética

ANJO PERDIDO

Verônica precisa fugir de sua realidade, mas a alternativa que escolhe conduzirá sua vida para um desfecho sem alternativas.

Leia no Wattpad: Anjo Perdido


O QUINTO CÍRCULO

Dante era um homem pacato e um pai e marido realizado e feliz. Porém, após a grande tragédia, encontrou dentro de si um demônio com sede de vingança. A sua inteligência e aparente tranqüilidade foram as armas que o conduziram à punição dos responsáveis pela destruição de sua família e de sua vida.

Leia no Wattpad: O Quinto Círculo



O GAROTO DE MONTESE

Um conto que trata da angustiante experiência de um pracinha durante a conhecida Batalha de Montese, uma cidade italiana, durante a 2a Guerra Mundial; revela seu encontro com uma criança em meio ao caos e questiona o mérito de viver ou morrer numa guerra.

Leia no Wattpad: O Garoto de Montese


Entrevista - PORTAL DO ESCRITOR

No link abaixo, entrevista para o Portal do Escritor, da Editora Scortecci.

Portal do Escritor - Scortecci

Pedacinhos do mundo exclamante

link com alguns trechos da obra:

SCORTECCI - CATÁLOGO DE PUBLICAÇÕES


Entrevista - DIVULGA ESCRITOR

No link abaixo, uma entrevista para a Revista Divulga Escritor, veiculada pelo Portal de Notícias Sopa Cultural:

DIVULGA ESCRITOR - Entrevista


Subespécies humanas

Sendo espectadora de certas notícias e fatos, é inevitável a pergunta: “O que motivaria algumas atitudes selvagens e ignorantes de alguns exemplares da espécie humana?”
Pensei numa hipótese, aparentemente, plausível: Quando os biólogos procederam à nossa classificação taxonômica, detiveram-se no “homo sapiens sapiens”. Optaram por não identificar outras subespécies, por uma questão, talvez, de vaidade perante à natureza, uma vez que faziam parte do objeto classificado. E essa vaidade ainda os motivou a repetir o termo "sapiens" para essa única subespécie reconhecida atualmente.
Mas há, claramente, outras subespécies entre os que chamamos de humanos.
Duas evidenciam-se entre elas: "homo barbaris" e "homo imbecilis".
A primeira é composta por predadores bárbaros (e imbecis), não talhados para o convívio social.
A segunda compõe-se de seres sem um mínimo de juízo de valor, capacidade crítica, atenção ou empatia - ainda quadrúpedes no espírito!
Os bárbaros e imbecis escondem-se entre as demais subespécies humanas, devido à sua aparência. Isso porque, no revestimento da espécie “homo sapiens”, ainda que haja pequenos detalhes distintos – provenientes da etnia, do sexo ou da idade, por exemplo – eles são, de fato, irrelevantes para considerar-se ou não um espécime como um ser humano. Ainda assim, esses e outros invólucros de consideração relativa tem um valor absoluto para muitos integrantes dessa espécie, de um modo um tanto negativo. Não se chegou a um nível evolutivo comum, em que todas as almas humanas são capazes de enxergar e reconhecer outras almas humanas.
Acredita-se apenas no que os olhos da matéria veem, até onde alcançam, e no que os ouvidos da matéria ouvem, muitas vezes, de bocas malditas.
(Benditos os macacos sábios, que poucos "sapiens" veem, ouvem ou deles falam e, menos ainda, entendem!)
É possível, no entanto, identificar bárbaros e imbecis, quando externam suas características peculiares, por exemplo, apartando, desrespeitando ou agredindo negros ou brancos, mulheres ou homens, jovens ou velhos, homos ou heteros, pobres ou ricos, bonitos ou “feios”, crentes ou céticos, canhotos ou destros, “perfeitos” ou imperfeitos, ou quaisquer outros grupos humanos identificados ou inventados, devido a suas opções, opiniões, histórias, culturas ou características diferentes.
Esse atraso na evolução, inerente ao “homo barbaris” e ao “homo imbecilis”, deve-se a um desenvolvimento insuficiente do cérebro racional, e esse fato afeta a sua capacidade (ou necessidade) de julgamento. Sentem-se ameaçados diante daquilo que não compreendem ou daquilo que é diferente do que veem no espelho. Com um cérebro míope, aos bárbaros e imbecis não é fácil distinguir uma ameaça real de uma imaginária, ou mesmo posicionar-se com interesse saudável e respeitoso pelo que é “diferente”. Limitados por uma mente pouco desenvolvida e delirante, na ilusão de haver um ideal de aparência, opinião ou vida, aplicável a todos, não são capazes de perceber o quanto poderiam desenvolver sua mente tacanha, aprendendo sobre o mundo que os cerca e sobre si mesmos com o diferente, ou o novo. A covardia ou o medo perante o desconhecido trava sua razão, deixando palavras e atos ao governo de impulsos primitivos e, hoje, um tanto descabidos. A incapacidade racional faz com que fujam ou ataquem aquilo com que não se identificam.
Os bárbaros e imbecis podem também ser comparados a alguns animais, de outras classificações taxonômicas, que se utilizam dos mecanismos de defesa antipredação. Liberam espinhos, substâncias gosmentas ou líquidos venenosos, mimetizam-se, ou utilizam ataques de resistência, porém, agem assim, ou até de modo mais drástico, diante de predadores imaginários.
Quando observamos as ações e as palavras dessas subespécies, uma primeira reação é a indignação ou a revolta, naturalmente. Mas, sob o domínio da razão, é possível notar como seus espécimes são dignos de pena, pois são limitados demais para perceber coisas elementares, como a leveza da simples aceitação do outro como é, ou deseja ser. São pobres espíritos incapazes de gozar do poder e da alegria de observar a diversidade sem, por ela, sentirem-se ameaçados.
É certo que cada um de nós, humanos, guarda em si doses de irracionalidade, egocentrismo e preconceitos, mas a diferença está na capacidade ou não de colocar tudo isso sob o domínio do bom senso e da consciência, no uso ou não da empatia, enfim, na qualidade do filtro de sensatez, utilizado ao longo da nossa breve existência nesse mundo, filtro esse, deficiente ou inexistente nas subespécies em questão.
De fato, eu gostaria de acreditar que toda essa “teoria” é uma grande bobagem, e que as barbaridades e imbecilidades praticadas por alguns “homo sapiens” são exceções, e que a regra é a racionalidade – que talvez sejam atos de mentes racionais, porém deturpadas por traumatismos, péssima educação ou deficiência química no cérebro e que, por apresentarem-se em número reduzido, podem ser controladas. Mas as vemos em excesso, executadas inclusive por bárbaros e imbecis com poder político, ocupando posições que lhes facultam lesar e destruir a nossa e outras espécies, tanto perpetuando a miséria e a ignorância, quanto com autoridade para conduzir nosso mundo a guerras irracionais e catastróficas. Diante desses e de todos os absurdos a que assistimos diariamente, é realmente difícil acreditar que somos todos de uma mesma subespécie “sapiens”.

A única gangorra de Zoí


No parque de diversões, diversidades e adversidades da vida, Zoí recebeu uma gangorra.

De um lado, a vida é bela, tanto quanto pode ser. Desse lado, há coisas duramente conquistadas e outras gentilmente concedidas. Há pessoas especiais, amadas e capazes de amar. Há habilidades aguardando a possibilidade e a alegria da realização. Há um infinito anseio por um conhecimento infinito. Há também olhos que enxergam a beleza em cada coisa e em cada um, sem romantismo, apenas com o realismo de olhar além das imperfeições naturais, sem as quais o belo nem mesmo existiria. Há lucidez e compreensão sobre muito e sobre muitos. Dessa compreensão, decorre uma tolerância firme não apenas ao mundo de fora, mas também ao mundo dentro de Zoí.

Mas há o outro lado da gangorra, pois a vida é mesmo assim.

Do outro lado, está o peso da dor e da exaustão. Estão a ansiedade, a vulnerabilidade e o torpor delas resultantes. Há indisposição sob as mais variadas expressões. Diariamente! Constantemente! Indefinidamente! Há pressões, opressões e impressões coladas, grudadas, impregnadas sobre o outro lado da indeclinável gangorra de Zoí.

A criança elegeu o primeiro lado para brincar, e se esforça para lá permanecer. Apesar de brincar sozinha em uma gangorra, o outro lado pesa ilogicamente. Seus poucos elementos desumanos são dotados de forças sobre-humanas, que compelem a extremidade indesejada da gangorra para baixo, de forma traiçoeira, pérfida. Sem escolha, Zoí desliza sobre a gangorra. Desesperadamente, tenta agarrar-se ao lado que escolheu. A gangorra, porém, torna-se íngreme demais e seu corpo escorrega. Ela é levada por uma gravidade particularmente humana para o outro lado. Os elementos desse outro lado são cruéis e estão lá, à espreita, para atacar, torturar, mortificar... mas apenas isso. Eles duramente maltratam Zoí, mas não a querem fora da gangorra.

Ela não se conforma. Não se entrega. O lado bom da gangorra faz com que ela se apegue e queira permanecer no seu brinquedo, ainda que tenha que recorrer a forças externas, dessas que diminuem o discernimento e reduzem, aos poucos, o tempo sobre sua tão especial gangorra. Zoí opta por recorrer a elas, pois, com frequência, resultam na única maneira de poder subir, rastejar para o outro lado. A frágil criança alcança o ponto médio do precioso brinquedo, às vezes. Mas Zoí precisa ir além, acreditando que se fosse possível colocar-se completamente daquele lado, onde está a melhor parte de si, seria capaz de catapultar, para fora da gangorra, os elementos nocivos que a ela se opõem.

Os pequenos demônios, no entanto, prendem-na pelos pés, enquanto Zoí tenta arrastar-se gangorra acima, apoiando-se numa inexplicável gana por atingir o lado eleito. Ficam ali, agarrados aos seus tornozelos, detendo e puxando Zoí. Muitas vezes ela não resiste e cai, mas permanece consciente, olhando a outra ponta da gangorra, ansiando por ela. Nesse momento, usa toda a energia que lhe resta, e também aquela que surge apenas de olhar para o lado bom, para não se lançar para fora da sua única gangorra.

Essa é a gangorra de Zoí... é a sua única gangorra... e ela não se ocupa pensando se há gangorras melhores ou piores. Mas, em alguns momentos, pode olhar em volta e ver outras crianças brincando, brigando, lutando pela sobrevivência em seus próprios brinquedos. Percebe que nem todas sobrevivem – algumas crianças caem e outras se jogam. Vê também que muitas não brincam sozinhas. Zoí é apenas mais uma criança em um imenso parque de diversidades, adversidades e, também, diversões da vida.

Com o passar das estações, a gangorra de Zoí revela típicos sinais de ferrugem e desgaste. Esteve sempre exposta às intempéries desse parque solto no espaço, ao longo do tempo. Sua estrutura demanda reparos, mas ainda não há ferramentas ou técnicos capacitados a reparar defeitos tão peculiares.

Sozinha sobre a gangorra, Zoí busca o equilíbrio. Lembra-se, no entanto, de que o propósito de uma gangorra não é o equilíbrio.

No futuro, a gangorra de Zoí vai parar sobre um dos lados. Qual será?

PREFÁCIO - O Mundo Exclamante


A especial inspiração deste livro nasceu no dia 02 de janeiro de 2008. Desde o seu primeiro ano de idade, Felipe demonstrou um interesse surpreendente por aprender. Sempre se mostrou curioso, detalhista e meticuloso. Bem cedo, ele se encantou com as letras. Costumava pedir para que lêssemos palavras e frases que lhe chamassem mais a atenção. Não havia nada com letras que não atraísse os seus grandes olhos verdes.

Devido a esse especial interesse, a partir dos quatro anos, sua leitura já estava aperfeiçoada e, então, iniciou a escrita. Gostava de inventar palavras ou expressões diferentes, ou adaptá-las ao que precisava em dado momento. Assim, surgiram “exclamado”, “metreletritos”, “céu de amor”, “tartagura voante”, entre outras, usadas ao longo deste livro. Aliás, há muito do Felipe e de suas brincadeiras e observações ao longo desta história de fantasia.

Aos seis anos, ele me perguntou: “mamãe, se você pudesse escolher outra profissão, o que você escolheria?”. Respondi que gostaria de ser escritora. Então, ele me pediu que escrevesse um livro para ele.

“E aqui está o livro que você me pediu, inspirado e dedicado a você, meu filho!”

O nome singular do personagem, Felipower, originou-se de um jogo, uma brincadeira que criamos na forma de um quadro de incentivos para o Felipe. Houve o Felipower 1.0, o Felipower 2.0 e, assim, sucessivamente. O uso da expressão “power” deve-se a uma gíria que Felipe, por volta dos quatro anos, ouvia de um amigo mais velho, e que lhe chamava muito a atenção: “Isso é power!” - dizia o amigo. Felipe apelidou o amigo de “tio Power”. Devido ao notório significado dessa palavra, pareceu adequado e sonoro juntar ao nome Felipe para incentivá-lo ainda mais na nossa brincadeira. E, como consequência, surgiu o nome do personagem principal deste livro.

Felipower experimenta um mundo de novidades em um universo de fantasia, que a cada momento o surpreende, provocando nesse garotinho especial uma destemida curiosidade e um aprendizado significativo para sua vida.


Era uma vez um trapo velho

... que havia passado do prazo de validade. Ele sentia cada esfregão no chão, cada ida e cada vinda com o rodo. Estava tão fino e puído, que suas fibras restantes destruíam-se pouco a pouco. O pobre trapo já merecia ser colocado de lado, esquecido, até que o passar dos anos apagasse a sua existência como acontecia com muitos outros trapos. Mas ali ficou, no chão de uma vida impossível.
Será que aquele trapo em especial precisava ser esfregado até produzir fogo? Ou, talvez, até produzir uma nova forma de trapo? Um trapo retorcido ou um trapo em nós, algo que desse algum sentido à sua vida diferente de trapo? Ah, mas quem sabe o mundo poderia evoluir a partir de um trapo em nós - Asas da borboleta x Tornado - porque simplesmente, para trapos humanos, não é admissível algo sem sentido, especialmente o sofrido vai e vem espremido entre o rodo e o chão encardido.

A corte da vida


Imagine que a vida seja um conjunto de demandas em juízo – de incontáveis conflitos de interesse em constante interação.
Nas demandas em que você é uma das partes, você não pode julgar e, se você é juiz, você não deve julgar sem um prévio processo de cognição. (Não fale sobre o que você não sabe)
Quando você realmente precisar ser um juiz, tenha reunido no processo o maior número de elementos que lhe mostrem a realidade dos fatos, objetivamente, antes de julgar, pois um juiz deve ser imparcial e, também, deve reconhecer seu grau de suspeição ou impedimento em cada lide. (Busque o conhecimento nos fatos e não na sua verdade)
Um juiz não impulsiona o processo, antes da provocação das partes. (Não se meta onde não for chamado)
É fundamental entender que você não pode bem desempenhar o papel de juiz e de parte em um mesmo processo da vida. (Está no meio da briga? Saia dela, antes de tomar decisões ou tirar conclusões definitivas)
Se há conflito, e você é uma das partes, certamente você contestará os argumentos da parte contrária de forma passional. (Esfrie a cabeça ou ficará sem defesas)
Para o juiz, deve haver uma relação de igualdade entre as partes. Nenhuma tem prevalência sobre a outra em seus direitos. (Não seja imbecil, gente é gente, seja lorde ou indigente)
Às vezes, em processos da vida, você é um procurador, um simples mandatário. Sim, simples. Como mandatário, o seu interesse não envolve emoções e a vida não é tão simples. (Respeite e não menospreze o sofrimento alheio)
No seu processo pode haver intervenientes. É possível que, no futuro, um deles faça toda a diferença no resultado da sua demanda. (Os coadjuvantes da sua trama são atores principais em outros enredos, nos quais você poderá ser o coadjuvante)
Deve haver mais de uma instância sim. Sendo parte, em dolorosos litígios da vida, você quer e merece o direito de recorrer. Proponha-se a uma segunda chance. A outra parte deve reconhecer seu direito com mansidão. Mas, lembre-se, é um direito recíproco.
Quando o processo chegar à última instância, o respeito e a lealdade processual, assim como a boa-fé devem permanecer. Você perdeu? Perdeu mesmo? Claro que não. Nos litígios da vida, perde-se apenas quando se perde a si mesmo. Não se desespere. Não trapaceie. Não ataque. Não queira obter seu bem da vida a qualquer custo. Não se perca.
Talvez não seja necessário dizer, mas o devido processo da vida ainda não tem todas as regras bem definidas, e seus sujeitos são complexos. Há princípios processuais vitais e indeclináveis, porém desconsiderados. Espera-se e roga-se por justiça, regra geral, pela justiça que vem do outro, esquecendo-se de si mesmo como um sujeito de deveres e não apenas direitos. A injustiça é constantemente aplicada pela confusão de papéis, pela falta de objetividade, pela má-fé, pela ignorância e, principalmente pela falta compaixão e empatia.
Na corte da vida, não seja um martelo cego. Desprenda-se do ego. Veja você no outro e veja o outro em você.


Clones da razão


Dona Razão é uma dama fácil. Anda com todo mundo.
É única, porém, não é raro que esteja com um e outro ao mesmo tempo.
Estranho não? Seriam clones da Razão??
Mas o interessante é que os clones são invisíveis. Então, se estou com a dona Razão, você não está, porque não vejo nem mesmo seus clones mal feitos. E nesse mundo concreto, existe somente o que vejo.
Claro, para você acontece o mesmo. Dona Razão está com você, é sua amante fiel, nunca o abandona. Você se orgulha disso e se pavoneia, alardeia, porque não a enxerga também, bem aqui do meu lado, na minha frente, atrás, sobre mim... Dona Razão é boa assim, sim!
É daqueles prazeres breves e, portanto, intensos, superáveis apenas por um Señorío de Ayud, ou qualquer outro tinto (seco, por favor!).
Quem será que está com a verdadeira Razão? Quem será que tem um clone ilegítimo?
A Razão, toda cheia de razão, então, assiste de camarote à disputa tola entre proprietários de clones espúrios, fabricados pelo seu arqui-inimigo e amante sadomasoquista, Sr. Ego.


aldravia #9


mesmo
os
bons
elásticos
têm
limites

aldravia #8


acendo
uma
luz
que
me
apaga



aldravias #5 / #6 / #7


a
dor
é
invisível
mas
real

o
cansaço
é
indizível
mas
brutal

a
luta
é
incrível
mas
vital

aldravia #4


parte
deste
mundo
parte
num
segundo

aldravia #3




nem
solidário
nem
solitário
otário



aldravia #2


aldravia #1

Veículo Louco

Todas essas coisas... tudo isso... como é difícil dar conta!!!
Tá, eu sei que já inventaram a roda, mas não acho as que se encaixem direito nesse eixo de pedra lascada.
É que minha vida é esse veículo louco...
A sorte é que tenho um chassi resistente e alinhado, que não deixa tudo desmoronar. Claro que não é perfeito! Não, não é feito de aço e, lógico, desalinha um pouquinho, de vez em quando. Mas ele é bom... tem dois componentes básicos, um incorpóreo e forte que resiste, insiste e não desiste. O outro, físico e frágil, às vezes, precisa de um tempo numa garagem escura, em silêncio, depois de alguns aditivos farmacêuticos.
Mas o lugar desse veículo é na estrada e não na garagem. Não gosto de ficar estacionada, e o aditivo preferido do meu motor não é fármaco, e é rubro. O fato é que esse chassi sempre volta a sustentar, bem ou mal, essa carroceria enorme e pesada que é a minha rotina.
Mas, talvez, o maior problema desse veículo seja o fato de não ter suspensão, numa estrada acidentada demais, cheia de pedras e buracos! Ele precisa de uma suspensão boa, daquelas bem caras e duradouras... daquelas que, na verdade, não inventaram ainda!
O que importa é que esse veículo tem muito chão pela frente, espero, e é o único que eu tenho. Não dá pra trocar por um zero, e nem quero. Não largo a direção, porque amo dirigir e amo meu veículo.
Aliás, não gosto de dirigir veículos alheios, afinal, não conheço o chassi e o motor dos outros, e tenho medo de machucar a lataria deles. E não entendo quando outros motoristas tentam dirigir meu automóvel, ou acham que o conhecem ou sabem como dirigi-lo.... Será que o carro deles não é interessante ou a manutenção é simples? Talvez precisem de revisão...
Eu respeito outros veículos, seus limites, sua estrutura, e o espaço que eles ocupam nessa estrada, e respeito a estrada, claro! De que adianta ter veículo sem estrada pra rodar...
Apesar de gostar de correr, não faço questão de ultrapassagens, senão quando tentam me segurar. Adoro correr de capota aberta... eu preciso correr, porque são tantos os destinos que eu quero alcançar antes de parar num ferro velho!
Acho que, de fato, é esse o tal maior problema! Desejo muitos e variados destinos, mas, ao mesmo tempo, gosto de olhar a paisagem do caminho e percebo pequenos e lindos destinos em cada centímetro da estrada. Então faço da direção um destino... e, às vezes, eu me perco na estrada.
Sim, meu veículo é louco... corre como se tivesse motor turbo, aerodinâmica de uma flecha e como se tivesse mesmo rodas... mas, às vezes, eu me vejo sobre uma motoneta num morro... sem rodas... e com expectadores lascados atirando pedras.


Interjeitosa

As interjeições andam tão presentes, que as exclamações lotaram minha mente.
As interrogações, sinuosas que sempre foram, andam se aprumando de tão apinhadas.
Falta espaço para os pontos finais também, pobres coitados perdidos em reticências…
As vírgulas, calmas adeptas de uma boa pausa, estão confusas e agitadas pelo ar, caindo sem controle em qualquer lugar.
Às vezes, unem-se aos pontos, adotando uma posição inútil.
Ahhh, mas essas exclamações!!!!
Insistem aqui na frente, aos olhos e ouvidos da mente, dançando, pulando, fazendo lálálálálá, pra eu não ouvir o resolvido e racional ponto final.
Pensam que me dominam, mas sou interjeitosa, sempre me encaixo em algum canto e boto ordem na bagunça.
Sei que não sou proprietária única dessa espelunca, mas sou a sócia majoritária.
Aqui dentro, mando eu, ora!
Também sei que nunca me livrarei dos oh, ah, ih, ui, ai, ei… nem mesmo em nome do eita, essa interjeição porreta que, sobre qualquer outra, sempre se ajeita.


Ani Mada e Desâ Nimo

Desâ Nimo era um bicho teimoso e incansável que sempre perseguia a menina Ani Mada, porém, nunca a alcançava.
Ela fugia, e ele insistia, pois contava com o dia em que Ani, a Obstinada, desistisse e parasse no meio da estrada.
Mas a menina corria e corria, além de si mesma... às vezes, até asas inventava e rumo ao impossível ela voava.
Desâ, muito animado, lá de baixo a vigiava, sabendo que, ora ou outra, suas asas seriam arrancadas pela dona Huma Nidade, sua mais bela e traiçoeira companheira.
E eis que aconteceu. Ani caiu, porém, como seu gato lhe ensinara: de pé... e pela sétima vez.
Seus ossos, seus músculos, tudo a sua volta desafiava uma inexplicável vontade que sempre a fazia dar mais um passo, e mais um e outro...
Dessa vez, no entanto, algo mais a segurava, algo invisível, desconhecido, indecifrável e, sob essa forma, intransponível. Ani sentia os braços enlaçados, apertados ao seu tronco, como se houvesse um cabo enrolado ao seu redor. Ainda assim, impeliu-se a dar mais um, só mais um passo, mas a corda lacerou fundo sua pele, travando a força da sua vontade. Preocupada, a menina olhou para trás... não queria que Desâ a apanhasse, e o que viu a deixou atordoada. Depois de tantas e tantas milhas percorridas, Ani ainda estava perto do ponto de partida.
A dor e um cansaço, que só um Pessoal heterônimo entenderia, fizeram com que Ani cedesse ao desalento.
Aquela que nunca parava, que corria e voava, então, sentou-se entre as faixas da longa e movimentada estrada.
Sentimentos iam, sentimentos vinham. Alguns esbarravam na menina, outros a atropelavam. Finalmente, o tinhoso Desâ aproximou-se e despejou todo seu peso sobre Ani. Ele a fez deitar-se e a esmagou no meio da estrada movimentada das emoções.
Vencida por Desâ Nimo, Ani, extasiada, esboçou um sorriso exausto e cáustico. A paz peculiar ao impossível finalmente a invadiu. Desâ, o Oportunista, covardemente a convencera de que não era tão malvado assim. Afinal, ele a fazia descansar, do jeito mais doloroso concebível, mas finalmente Ani Mada descansava.


Meta Morfose


isto ainda me mata:
a vida!
hei de morrer disso
quero que a vida me mate
para permanecer viva
que me desmantele
que me dilacere
e que me desintegre
depois me reconstrua
pois a vida continua
serei o fruto da boa morte
em vida
até que isso me mate
outra vez
e até que me mate
de uma vez

Teoria da Substituição


Todos os dias, enquanto dormimos, ou mesmo quando não dormimos, em algum momento, abre-se um espaço no tempo, em que somos retirados desta vida e substituídos por outro ser que recebe nossas memórias.
E nem mesmo é possível dizer que esse novo ser tem a mesma aparência. Nem isso!
Pense no bebê, na criança, no jovem... e pense até o final!
Já não sou a mesma que iniciou o texto. Fui, sou e serei substituída por alguém diferente, constantemente, ainda que em mínimos detalhes – células que morrem e outras que nascem. Porém, no decurso do tempo, esse é um fenômeno imperceptível.
Basta deter-se um pouco, à frente do espelho, e usar um olhar mais crítico, tanto para a forma refletida, quanto para o conteúdo dos olhos que te olham de volta, para perceber ali uma outra pessoa.
Isso acontece todos os dias, ou quem sabe todas as horas, minutos, segundos... e considere até o mais ínfimo instante!
Por tratar-se o novo ser de um outro conjunto de células, a transferência das memórias não ocorre de forma autêntica, inteira. Assim, fragmentos de memórias precisam ser preenchidos de forma a ter sentido para o novo alguém na frente do espelho.
Tudo o que meu último "eu" recebeu foram lembranças fragmentadas e, inconscientemente, reconstituídas dentro de um novo conjunto de células. A memória não é apenas mental, mas também física, e cada célula carrega reminiscências incompletas, eivadas de vícios de adaptação.
Sendo a troca imperceptível para cada novo ser, não é possível criar novas memórias, completamente desvinculadas ou não assentadas nas anteriores.
Assim, os conceitos sobre o mundo e sobre aquele reflexo no espelho não podem ser considerados isentos ou totalmente confiáveis.
A troca é um fato inevitável, tal qual foi nascer ou será morrer. Não é bom ou ruim. Apenas é!
Perceber a mudança, e aceitar que memórias e conceitos possam ser abstrações viciadas, talvez seja a oportunidade de uma nova vida, que as memórias dos seus "eus" anteriores tanto desejam.

Autora do texto: Eu de Agora de Sandra Boveto