Tempos confusos esses


Tempos confusos esses, desde que os humanos habitam o planeta. Confusos humanos, perdidos em sua existência inconsciente e inconsequente sobre um esférico presente.
Não, humano, esse presente não está embalado. Pare de rasgar e destruir o que você trata como embalagem, ou laços e fitas sem importância. Você não encontrará nada que valha tantas penas abaixo disso. Os detalhes colocados na superfície do presente não são apenas enfeites, e não são descartáveis. São elementos que integram o presente e sustentam sua vida, e deles fazem parte os outros mais de sete bilhões de detalhes humanos como você.
Talvez o que você não saiba, “homo sapiens”, é que sempre que uma vida, humana ou não, é desrespeitada, desvalorizada, rasgada e jogada no lixo, o presente torna-se menos presente nessa sua vida equivocada. Há menos presente e mais passado a cada pedaço de planeta rasgado, e sua vida está no presente... nesse presente.
Acorde, humano!
O seu engano? Você acha que o presente é todo seu!
De tanto querer tudo só para você, você tenta arrancar a quota que não lhe pertence da mão do outro a qualquer custo. Na sua mente egocêntrica, você acredita ser algo mais do que é qualquer outro humano a quem foi, precariamente, entregue esse presente, e furta-se às regras básicas de uso de um presente em comum: ética, empatia, respeito e responsabilidade.
Veja como seu espírito é ilógico e ignorante: você acredita que a embalagem do presente não tem valor, mas a embalagem da sua espécie tem. Acredita que a cor e a forma da sua própria casca, ou a embalagem que ela utiliza para usufruir o presente, são mais importantes que o seu conteúdo.
Imbecil que é, você rouba, mata e destrói cada pedacinho do seu presente para dominá-lo. Se você não acordar, sabe qual será seu futuro, humano? Será o de uma embalagem vazia e descartável dominando um pedaço de esfera arruinado, e apenas pelo breve tempo que a vida ou o resultado da sua ignorância permitirem.


Looping


looping é coisa que volta fácil
e chega difícil

alevina mialgia
da estéril piracema

montanha-russa sem adrenalina
obscena

é sensação divina
cômoda
criado-mudo
abajur
de saber como agir
na mesma cena

tem ponto de retorno feio
dramático
nefasto


mas

é nesse cômodo que eu me acho
confortável
letárgico
deitado na cama
do “eu sei o resultado”

Sou mulher


sou fêmea de uma espécie singular
não, não sou “do lar”
sou multilugar
sou do mar, do luar, talvez um Avatar
às vezes pairo no ar
invento horas, amo e odeio o tempo
estico-me aos mil espaços que invento

gosto de Ciência, maquiagem e Filosofia
neurociência, dança do ventre e Astronomia
literatura, adrenalina, carros
qualquer shot, livros e sapatos
tinto seco, beijo na boca e pimenta
Galileu, Vogue
mas Tititi não me entra

sou vaidosa, feminina e corro de salto
as minhas unhas eu mesma esmalto
amo ouvir e ler gente inteligente
homens sábios seduzem-me facilmente
preconceitos e fofocas me dão aflição
não gosto de falar palavrão
porque não

não cresci pensando em casar e ter filhos
estudei, batalhei
ainda encaro empecilhos
sou independente e carente só de conhecimento
gosto de flores plantadas
e jantares à luz do vento
sou a parceira, não a mulher de alguém
sou mãe apaixonada
e do amor dócil refém