Ao Poeta

poeta, eu te suponho santo
se hoje há verso

já houve pranto
do pranto que dá medida à alegria
pariu-se o verso da tua poesia

santo, eu te suponho poeta
pois sua dor não é mais secreta
Mesmo os versos de contemplação
foram embriões

na dor e na paixão

Eclipse da Realidade


quero a dimensão improvável
em que a lua e o sol

negam-se ao sono dos comuns
e procuram-se
desviam seu curso universal
unindo versos

no reverso do esperado

num choque tão lascivo quanto impossível
explodem sensações
eclodem

multiversos de emoções

quero a dimensão do infinito guardado no que não é eterno
dispenso a eternidade

que em legítima defesa
rejeita a intensidade

do que desejo

Cara loucura


dentro de mim há um enigma
olho para fora

busco a cura
não resisto
quero a loucura
essa que cura

loucura benigna
pois quando louca
sinto-me sã
salva da lucidez que me enlouquece

dessa lucidez que me adoece

quero a loucura

cega
surda
e vã

sim, vã

o que faz sentido maltrata
o significativo não mais me arrebata
vou-me ajustar a essa vida insana
não resisto!

tiraram-me a gana
...

não, não é isso
fui leviana
quero a lucidez

a mais cara loucura
volto à lucidez

e me entrego à tortura
que doa
que maltrate
ou que me mate
mas confio à lucidez

o meu resgate

Sem saída


não quero pensar

quero escrever
o que sinto não quer significar

quer apenas o sentido
de ser escrito

o que é pensado

rebenta no meu centro
e se espalha
é metástase de inconformismo

o que não é escrito

busca saída em todos os sentidos
mas nenhum liberta
ou faz sentido

rARefeito


Um desejo me aperta a garganta
arfando, eu vivo os dias
ar falta ao peito
arquejo
no ar.

Escrevo o aperto de um tempo
suando, aperto a caneta
a letra rejeito
ar vejo
no bar.

Líquido Seco


líquido

desfaz-se e busca a solidez
na solidão eterna de um momento líquido
- Barman ou Bauman?
- Ambos, por favor!

há pontas

há ondulações
há mágicos atritos

que arranham
e acariciam

líquido seco

que o caos acalma
que a calma tinge de guerra

com a cor do sangue
sem a dor da alma

a língua adormece aos poucos
entrega-se à morte

do mundo que não vive
língua morta de uma mente viva
que nunca morre

que nunca dorme
que sangra na taça